O QGIS 4.2 foi lançado em 3 de julho de 2026 com um detalhe que a comunidade brasileira esperava há tempo: o nome da versão é Belém do Pará. É a primeira vez na história do projeto que uma cidade brasileira aparece no splash screen do software livre de SIG mais usado do mundo.
A homenagem não é marketing. Em dezembro de 2024, Belém sediou o FOSS4G e o QGIS LATAM 2024, na Coordenação Espacial da Amazônia do INPE. Depois do encontro, Marco Bernasocchi, presidente da QGIS.ORG, anunciou que uma versão futura levaria o nome da cidade. Dois anos depois, o nome chegou, e a versão já está na série 4.2.2.
Mas o nome sozinho não justifica atualizar o computador da prefeitura, do escritório ou do laboratório. Abaixo, o que de fato muda, o que não muda, e quando faz sentido sair da LTR 3.44.
LR 4.2 ou LTR 3.44? Não misture as duas
Essa é a confusão mais comum desde o lançamento.
| Canal | Versão atual (set/2026) | Para quem |
|---|---|---|
| Latest Release (LR) | 4.2.2 Belém do Pará | quem quer novidades agora e aceita ciclo curto |
| Long Term Release (LTR) | 3.44.x Solothurn | produção, prefeitura, consultoria, ensino |
A 4.2.0 é um lançamento regular de ciclo de quatro meses. A LTR continua sendo a 3.44. A previsão da comunidade é que a 4.2.4 vire LTR em outubro de 2026. Quem trabalha com prazo e plugin crítico deve esperar essa LTR, ou testar a 4.2 em um perfil separado.
A linha 4.x também herda a migração para o Qt6, iniciada no QGIS 4.0 (março de 2026). Plugins antigos escritos só para Qt5 podem quebrar. Sempre teste antes de migrar o projeto oficial.
Por que Belém
Os nomes das versões do QGIS costumam homenagear a cidade que sediou um encontro de desenvolvedores ou de usuários. Belém entrou nessa lista porque reuniu, no mesmo evento, o maior congresso de geotecnologias livres do mundo e o 2º Encontro de Usuários QGIS da América Latina, com mais de 150 participantes no INPE.
Detalhe de cartógrafo: o splash screen da 4.2 usa um mapa histórico de Belém em que o norte não está no topo. Anita Graser, que desenhou a tela, lembrou o óbvio que a gente esquece: “norte para cima” é convenção, não lei da cartografia.
Mapa histórico de Belém usado como base para a tela inicial do QGIS 4.2:

Tela inicial do QGIS 4.2:

O que muda na prática
O changelog oficial é longo e pesado em 3D. Para o dia a dia no Brasil, cadastro, mapeamento com drone, layout de mapa e LiDAR, estes são os pontos que importam.
1. Visualização 3D deixou de ser “bonita, mas limitada”

A 4.2 trata o 3D como ferramenta de trabalho, não só de apresentação:
- materiais PBR (physically based rendering), com textura, metalicidade, rugosidade e oclusão ambiente;
- bloom, MSAA e iluminação derivada do skybox;
- renderer categorizado e por regras para símbolos 3D — o mesmo raciocínio do renderer 2D;
- instancing de modelos e suporte melhor a 3D Tiles (incluindo implicit tiling e tiles compostos);
- exportação da cena para STL (sem textura);
- perfil de elevação visível também na vista 3D.
Se você gera MDS/MDT com drone ou trabalha com nuvem de pontos urbana, vale abrir um projeto-teste só para isso.
2. Nuvem de pontos: formato .vpz e sombreamento por camada

Quem monta Virtual Point Cloud (VPC) ganhou:
- leitura de VPC com várias overviews;
- suporte ao .vpz (VPC compactado em zip);
- sombreamento de elevação por camada, e não só global;
- cor da nuvem controlada por expressão, por exemplo misturando a cor base com intensidade.
Isso reduz artefato quando você empilha faixas de voo com densidades diferentes.
3. Layout de impressão mais honesto com a simbologia

Dois ganhos diretos para quem entrega mapa:
- o gráfico do layout pode herdar categorias e cores do renderer da camada vetorial;
- o GeoPDF exportado preserva a árvore de camadas (grupos, ordem e visibilidade);
- é possível recortar uma imagem do layout com um item de forma.
Se o seu fluxo é “mapa + gráfico de área por classe de uso do solo”, o gráfico deixa de ser um objeto desconectado da legenda.
4. Pequenas melhorias que economizam clique
- Carregar e salvar estilo direto no menu da camada.
- Calculadora de campo no menu de contexto do cabeçalho da tabela de atributos.
- Algoritmos do Processing podem ir para um menu ou barra personalizada.
- CRS topocêntrico, útil em projetos de engenharia e obras em que a origem local importa.
- SensorThings 2.0 no provedor de sensores.
- FeatureServer da Esri mais rápido na visualização e carregamento paralelo de camadas AFS/AMS.
Nada disso vira capa de site. Tudo isso aparece no trabalho de terça-feira.
Breaking change: o perfil do QGIS 4 não é o do QGIS 3
Na primeira abertura, a 4.x migra o perfil da 3.x para um diretório separado. A cópia é única. Depois disso, alteração feita na 3.44 não vai para a 4.2, e vice-versa. Scripts de instalação corporativa e pastas de perfil em rede precisam apontar para o novo caminho.
Na prática: instale a 4.2 sem desinstalar a 3.44. Use dois atalhos. Abra o mesmo .qgz nos dois e anote o que quebrou.
Devo atualizar agora?
Atualize já (em perfil de teste) se você:
- já está na linha 4.0 e quer as correções da 4.2.2;
- trabalha com nuvem de pontos, 3D Tiles ou layouts com gráfico;
- precisa validar plugins que você mesmo mantém.
Espere a LTR 4.2.4 (outubro) se você:
- entrega produto para cartório, órgão público ou cliente com prazo fechado;
- depende de plugin que ainda não declara suporte a Qt6 / QGIS 4;
- não tem tempo de revalidar um projeto inteiro nesta semana.
Fique na 3.44 se você:
- só precisa de estabilidade e o projeto abre sem erro;
- usa um parque de máquinas heterogêneo (laboratório, prefeitura, campo).
Regra simples: produção na LTR, experimentação na LR.
Checklist de migração (15 minutos)
- Baixe o instalador em qgis.org/download. No Windows, o OSGeo4W ainda é o caminho mais previsível.
- Crie um perfil novo: Configurações → Perfis de usuário → Novo perfil.
- Abra um projeto típico (GPKG + raster + layout).
- Liste os plugins ativos e marque os que falharam ao carregar.
- Exporte um GeoPDF e compare a árvore de camadas com a 3.44.
- Se usa nuvem de pontos, gere um .vpz de uma faixa pequena e teste o sombreamento por camada.
- Só então copie o projeto oficial para o perfil da 4.2.
Onde ler o changelog completo
- Visual changelog 4.2: qgis.org/project/visual-changelogs/visualchangelog42
- Lista de funcionalidades: changelog.qgis.org/en/qgis/version/4.2
Conclusão
O QGIS 4.2 “Belém do Pará” é notícia boa por dois motivos diferentes. O primeiro é simbólico: o software livre de SIG mais usado do planeta passou a carregar no nome uma cidade amazônica e o trabalho da comunidade brasileira desde o QGIS LATAM 2024. O segundo é técnico: a linha 4.x saiu do “Qt6 funcionando” e chegou a um ponto em que 3D, nuvem de pontos e layout merecem teste real.
O nome é brasileiro. A decisão de atualizar continua sendo a de sempre: teste no perfil separado, mantenha a LTR no projeto que paga a conta, e migre quando a 4.2.4 virar a versão de longa duração.


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